O céu estava radiante naquele
início de dezembro e Roberta começava seu processo reflexivo de fim ano. Iniciava
aquele mês refletindo sobre sua vida, mais uma vez seus pensamentos
realizavam um longo processo reavaliativo de si mesma. Uma revoada de pássaros,
como acontecia em todas as manhãs, sobrevoou seu quintal, descortinando a
promessa de mais um bom dia.
Decidiu, naquela manhã, fazer sua refeição matinal na varanda de casa. Sentada à mesa, aguardou uma novidade
pousar nela, esperou como esperam as frágeis e delicadas flores por suas
abelhas. Começou a pensar nisso quando uma pequenina pousou no copo em que
bebia o suco que se encontrava sobre a mesa, posta perto do jardim. Assim,
começou a abrir em sua mente os delírios que sempre se camuflavam em sua cabeça. Roberta adorava fazer os paralelos do diferentes mundos. Desejava dos alquimistas
a inacreditável transformação do seu mel.
"Claro que homens são como
abelhas", ela elucubrava! "Eles sempre buscam diferentes flores, diferentes
néctares. É papel deles, polinizar o mundo. Só mesmo os zangões copulam zangados
com a rainha gorda e disforme, tudo isso pela manutenção da ordem! Da velha e
rotineira ordem!"
Pôs um pouquinho de própolis
no suco de laranja e afugentou a abelhinha. "Que faça ela mel, para sua
chefa, das outras flores, não da minha saliva na borda do meu copo!" Ela devia
estar mesmo louca, brigava sozinha, brigava com qualquer coisa que invadisse o
espaço que considerava ser só seu. Os periquitos passaram de novo em revoada, eles
adoravam fazer isso. O canto do galo, do alto da árvore, embora compusesse
aquela sublime sinfonia, parecia por vezes querer destoar daquele coro tão lindo
de pequenas aves.
Naquela semana havia
decidido, seu computador faria a pausa necessária para que pudesse reestruturar seu caos interior. Por vezes isso a deixava meio maluca, e vez por outra se pegava conversando com os objetos, com o computador e com as abelhas que pousavam na sua louça... Logo já começava a elaborar incríveis fábulas em sua cabeça.
Prestar atenção no universo lá
fora era uma forma que tinha de recriar em sua mente um mundo fantástico, numa dimensão
nada frequentada pela maioria das pessoas.
Foi até a edícula nos fundos
de casa, pegou sua bicicleta e saiu para se exercitar. Ela precisava conversar
com o vento, queria a harmonia do ar em movimento em seus ouvidos. Zum, Zum, revelaria uma lufada, em segredo.
Depois de muito pedalar, parou perto de um parquinho para descansar. Sentou num banco próximo. Roberta andava meio enferrujada e
após quase duas horas de pedal, parecia inalar todo o oxigênio do seu
futuro. Uma vespa a ferroou na mão e gritar foi involuntário. Uma criança que
brincava na areia percebendo sua dor correu até ela:
- Não chore não, moça. Veja, bem feito, o bichinho mal, morreu.
A criança olhou curiosa para a mão que começava a inchar e continuou:
- Está doendo?
O menino tinha uma expressão
tão familiar que por instantes Roberta esqueceu sua dor e o fitou.
- Está doendo muito? - Ele
insistiu.
Não conseguiu responder. Ela já
tinha visto aqueles olhos, mas não, não eram os mesmos. Alguém já havia a contemplado exatamente assim, exatamente com aquela mesma ternura.
- Tomás, Tomás! Venha já pra
cá.
Ah, aquela voz! O homem se aproximou da
criança de modo ríspido e a puxou. Ele não viu o rosto dela. Seu cabelo o cobria e
ela fingia pra si mesma retirar o ferrão do dedo. Não teve coragem de
levantar a cabeça e encarar o pai daquela criança. Fora ele o seu grande
amor, o grande amor de um passado tão distante, quanto hoje a capacidade daquele homem de observação ou gentileza.
Quinta-feira. Já estava no
trabalho, não era ainda nove horas da manhã, abriu os e-mails da sua seção
como costumava fazer todos os dias nesse horário. Um assunto na caixa chamou sua atenção mais que qualquer outro na tela: Desculpa, só vi que era você depois de um tempo.
“Recorri a todas as formas possíveis
de te achar, rs. Peço desculpas por invadir o e-mail do seu trabalho, mas foi o único disponível no google. Espero
que seja você mesma que esteja lendo isso agora, por isso que não mencionarei nossos nomes aqui. Quando você levantou naquele sábado, naquele parquinho, daquele
banco e pegou sua bicicleta, eu tive a certeza, era você. Meu coração disparou
e não consegui me aproximar. Jamais deveria ter embarcado naquele avião para Paris.
Jamais deveria ter deixado você, eu sei. Você como sempre, bela. Seria
impossível não nota-la. Estarei no Clube do Choro hoje às 20h. Seria muito bom
se pudéssemos nos reencontrar. Um grande e carinhoso beijo.”
Sua mão foi à boca, e a
emoção foi um nervoso só, um misto de riso com vontade de chorar. O final de
semana já tinha lhe trazido algumas recordações depois daquele episódio.
Levantou. Foi até a copa do setor e tomou uma xícara grande de café, depois retormou de novo para o computador.
Era óbvio que era para ela aquela
mensagem. Era um e-mail do Paulo, só ele poderia ter escrito aquilo. Voltou muitas vezes para o seu outlook durante o dia. Tentou redigir diversas
respostas, mas não, não conseguiu. E ao Clube do Choro, conseguiria?
Que espécie de zangão ele
deveria ter se tornado? Ela pensava. Será que ainda voava de flor em flor? E que tipo de mel
agora ele era capaz de produzir?
Entrou naquele espaço. A apresentação
já acontecia. Só os músicos estavam iluminados. Eram eles que irradiavam à luz
na escuridão do recinto. Encostou sua cabeça no canto da parede e ficou observando a expressão daquele musicista... Paulo deveria estar lá, mas e se
não estivesse? E o que importaria tudo agora? Por que interessaria, a
visão daquele zangão frente à sua flor, se no seu desabrochar ele jamais lhe revelara à geleia real da sua doçura? Afinal, por que ela estava ali?
Encostada num canto, Roberta acompanhava a composição magnífica que os dedos mágicos do pianista revelavam
ao acariciar aquele instrumento. Quando uma mão segurou seu ombro com suavidade,
tudo o que quis foi permanecer parada, sem virar pra trás, transformando-se no resto daquela música que ia terminando, tentando se encaixar na composição,
como flamingos num lago cor-de-rosa.

Nenhum comentário:
Postar um comentário