Rebeca era daquelas que
perdia a amiga, mas não perdia a piada. Adorava tirar onda da cara dos outros.
Muitas vezes não se tocava, na maioria das vezes chegava mesmo a ser chata.
Era
por volta das 18 horas e seus colegas de trabalho estavam saindo da empresa.
Alguns estavam parados do lado de fora, conversando ainda sobre o serviço, próximo à porta de saída .
Cínica como era, despediu-se
de todos com um sorrisinho fingido na cara, pegou seu celular, entrou no carro
e ligou ali mesmo do estacionamento para a amiga que estava na rodinha de
conhecidos ali na frente.
- Patrícia, não fale
meu nome. – foi logo avisando – Diga sinceramente o que você acha do cabelo da
nossa colega.
- De quem?
- Da Bruna.
Instantes de absoluto
silêncio se seguiram. Patrícia fez que não ouviu e desligou.
Rebeca apertou recall e
insistiu:
- Patrícia, não
desligue na minha cara, não. Fale logo. – Disse rachando de tanto rir
do outro lado da linha.
- Não estou te ouvindo
direito, vou desligar. - mentiu.
O telefone tocou pela
terceira vez e desta vez Rebeca não perdoou:
- Esse cabelinho aí é
simplesmente horroroso, essa mulher parece uma bruxa, eu não aguento ela. E
essa pinta que ela tem na ponta do queixo? Parece aquelas feiticeiras horrendas
saídas das histórias de terror. – Rebeca ria e ironizava.
- Fala alguma coisa
Patrícia. Fala vai, vai dizer que é mentira?
- Você sabe que não dá
pra falar agora. E pare de me ligar. Depois conversamos. – Patrícia desligou o
celular, constrangida por estar olhando na cara da mulher que estava bem na sua
frente, enquanto Rebeca sacaneava do outro lado da linha.
Dessa vez Rebeca não
ligou mais. Olhou-se pelo espelho do seu carro, mexeu nos seus cabelos sedosos,
arrumou novamente o retrovisor, ligou a ignição e partiu.
“Meus cabelos são
maravilhosos, ainda bem. Graças a Deus que não tenho aquele cabelo horrososo da Bruna”,
pensava.
Rebeca queria que seus cabelos fossem apenas um pouquinho menos armado,
mas nada que uma escova progressiva não resolvesse. Quando disse mentalmente a
palavra escova progressiva, Rebeca pensou com a sua “inteligência” peculiar: “Lógico,
se eu fizer um relaxamento no meu cabelo, que já é naturalmente sedoso, ele vai
ficar no mínimo escorrido como o da Monalisa”.
Era exatamente o que
ela queria. Parou na frente de uma casa de cosméticos próximo a sua residência e
pediu informações à vendedora.
- Por favor, qual o
melhor relaxante para cabelo?
A vendedora olhou para
os cabelos de Rebeca, hesitou um pouco, pegou a caixa e respondeu:
- Esse aqui. Mas, não é pra senhora, é?
- Pra mim mesma. –
Disse Rebeca extasiante.
A vendedora arregalou
os olhos e continuou:
- Seu cabelo não
precisa de relaxante.
- Ah, não precisa, mas
vou passar. Vai ficar lindo. – Disse em tom arrogante.
- Bem, já que a senhora
quer tanto fazer esse tratamento capilar, nós podemos indicar um bom
profissional.
- Não querida, eu sei
ler a bula, obrigada. – Disse irritada dirigindo-se ao caixa.
Rebeca pagou a conta e
entrou no carro. Mal chegou em casa e se enfiou no banheiro. Não prestou muita
atenção nas instruções da bula. Já havia pintado sozinha seus cabelos. Apenas
imaginou que se deixasse seus cabelos mais tempo com o produto, mais escorrido
ele ficaria.
Ligou a TV e assistiu toda a propaganda eleitoral com aquela
gororoba na cabeça. Dormiu. Algum tempo depois acordou assustada, sentia sua
cabeça quente, mas do que o normal. Correu para o banheiro novamente e não teve jeito.
Viu uma fumaça real sair de toda sua cabeça. Jogou todos os condicionadores que
tinha em casa, jogou leite, jogou ovo, depois se jogou na piscina de casa.
Quando olhou no espelho de novo lembrou do pallaço Bozo. Então chorou. Lembrou
da Bruna. Imediatamente pegou o telefone e ligou para sua amiga Patrícia:
- Paty, você me
desculpa por hoje, viu? Prometo nunca mais falar mal do cabelo da nossa colega, aliás
do cabelo de ninguém.
- Rebeca, você está
chorando?
- Estou.
- O que aconteceu?
Porque está falando ainda do cabelo da Bruna?
- Porque agora, até o cabelo da Bruna é melhor que o meu e amanhã, eu vou ter que sair para comprar uma peruca.

