quinta-feira, 28 de março de 2013

LÍNGUA DE TRAPO, CABELO DE AÇO



Rebeca era daquelas que perdia a amiga, mas não perdia a piada. Adorava tirar onda da cara dos outros. Muitas vezes não se tocava, na maioria das vezes chegava mesmo a ser chata.

Era por volta das 18 horas e seus colegas de trabalho estavam saindo da empresa. Alguns estavam parados do lado de fora, conversando ainda sobre o serviço, próximo à porta de saída .

Cínica como era, despediu-se de todos com um sorrisinho fingido na cara, pegou seu celular, entrou no carro e ligou ali mesmo do estacionamento para a amiga que estava na rodinha de conhecidos ali na frente.

- Patrícia, não fale meu nome. – foi logo avisando – Diga sinceramente o que você acha do cabelo da nossa colega.

- De quem?

- Da Bruna.

Instantes de absoluto silêncio se seguiram. Patrícia fez que não ouviu e desligou.

Rebeca apertou recall e insistiu:

- Patrícia, não desligue na minha cara, não. Fale logo. – Disse rachando de tanto rir do outro lado da linha.

- Não estou te ouvindo direito, vou desligar. - mentiu.

O telefone tocou pela terceira vez e desta vez Rebeca não perdoou:

- Esse cabelinho aí é simplesmente horroroso, essa mulher parece uma bruxa, eu não aguento ela. E essa pinta que ela tem na ponta do queixo? Parece aquelas feiticeiras horrendas saídas das histórias de terror. – Rebeca ria e ironizava.

- Fala alguma coisa Patrícia. Fala vai, vai dizer que é mentira?

- Você sabe que não dá pra falar agora. E pare de me ligar. Depois conversamos. – Patrícia desligou o celular, constrangida por estar olhando na cara da mulher que estava bem na sua frente, enquanto Rebeca sacaneava do outro lado da linha.

Dessa vez Rebeca não ligou mais. Olhou-se pelo espelho do seu carro, mexeu nos seus cabelos sedosos, arrumou novamente o retrovisor, ligou a ignição e partiu.

“Meus cabelos são maravilhosos, ainda bem. Graças a Deus que não tenho aquele cabelo horrososo da Bruna”, pensava. 

Rebeca queria que seus cabelos fossem apenas um pouquinho menos armado, mas nada que uma escova progressiva não resolvesse. Quando disse mentalmente a palavra escova progressiva, Rebeca pensou com a sua “inteligência” peculiar: “Lógico, se eu fizer um relaxamento no meu cabelo, que já é naturalmente sedoso, ele vai ficar no mínimo escorrido como o da Monalisa”.

Era exatamente o que ela queria. Parou na frente de uma casa de cosméticos próximo a sua residência e pediu informações à vendedora.

- Por favor, qual o melhor relaxante para cabelo?

A vendedora olhou para os cabelos de Rebeca, hesitou um pouco, pegou a caixa e respondeu:

- Esse aqui. Mas, não é pra senhora, é?

- Pra mim mesma. – Disse Rebeca extasiante.

A vendedora arregalou os olhos e continuou:

- Seu cabelo não precisa de relaxante.

- Ah, não precisa, mas vou passar. Vai ficar lindo. – Disse em tom arrogante.

- Bem, já que a senhora quer tanto fazer esse tratamento capilar, nós podemos indicar um bom profissional.

- Não querida, eu sei ler a bula, obrigada. – Disse irritada dirigindo-se ao caixa.

Rebeca pagou a conta e entrou no carro. Mal chegou em casa e se enfiou no banheiro. Não prestou muita atenção nas instruções da bula. Já havia pintado sozinha seus cabelos. Apenas imaginou que se deixasse seus cabelos mais tempo com o produto, mais escorrido ele ficaria.

Ligou a TV e assistiu toda a propaganda eleitoral com aquela gororoba na cabeça. Dormiu. Algum tempo depois acordou assustada, sentia sua cabeça quente, mas do que o normal. Correu para o banheiro novamente e não teve jeito. Viu uma fumaça real sair de toda sua cabeça. Jogou todos os condicionadores que tinha em casa, jogou leite, jogou ovo, depois se jogou na piscina de casa. Quando olhou no espelho de novo lembrou do pallaço Bozo. Então chorou. Lembrou da Bruna. Imediatamente pegou o telefone e ligou para sua amiga Patrícia:

- Paty, você me desculpa por hoje, viu? Prometo nunca mais falar mal do cabelo da nossa colega, aliás do cabelo de ninguém.

- Rebeca, você está chorando?

- Estou.

- O que aconteceu? Porque está falando ainda do cabelo da Bruna?

- Porque agora, até o cabelo da Bruna é melhor que o meu e amanhã, eu vou ter que sair para comprar uma peruca.







AQUELE DEZEMBRO


O céu estava radiante naquele início de dezembro e Roberta começava seu processo reflexivo de fim ano. Iniciava aquele mês refletindo sobre sua vida, mais uma vez seus pensamentos realizavam um longo processo reavaliativo de si mesma. Uma revoada de pássaros, como acontecia em todas as manhãs, sobrevoou seu quintal, descortinando a promessa de mais um bom dia.

Decidiu, naquela manhã, fazer sua refeição matinal na varanda de casa. Sentada à mesa, aguardou uma novidade pousar nela, esperou como esperam as frágeis e delicadas flores por suas abelhas. Começou a pensar nisso quando uma pequenina pousou no copo em que bebia o suco que se encontrava sobre a mesa, posta perto do jardim. Assim, começou a abrir em sua mente os delírios que sempre se camuflavam em sua cabeça. Roberta adorava fazer os paralelos do diferentes mundos. Desejava dos alquimistas a inacreditável transformação do seu mel.

"Claro que homens são como abelhas", ela elucubrava! "Eles sempre buscam diferentes flores, diferentes néctares. É papel deles, polinizar o mundo. Só mesmo os zangões copulam zangados com a rainha gorda e disforme, tudo isso pela manutenção da ordem! Da velha e rotineira ordem!"

Pôs um pouquinho de própolis no suco de laranja e afugentou a abelhinha. "Que faça ela mel, para sua chefa, das outras flores, não da minha saliva na borda do meu copo!" Ela devia estar mesmo louca, brigava sozinha, brigava com qualquer coisa que invadisse o espaço que considerava ser só seu. Os periquitos passaram de novo em revoada, eles adoravam fazer isso. O canto do galo, do alto da árvore, embora compusesse aquela sublime sinfonia, parecia por vezes querer destoar daquele coro tão lindo de pequenas aves.

Naquela semana havia decidido, seu computador faria a pausa necessária para que  pudesse reestruturar seu caos interior. Por vezes isso a deixava meio maluca, e vez por outra se pegava conversando com os objetos, com o computador e com as abelhas que pousavam na sua louça... Logo já começava a elaborar incríveis fábulas em sua cabeça.

Prestar atenção no universo lá fora era uma forma que tinha de recriar em sua mente um mundo fantástico, numa dimensão nada frequentada pela maioria das pessoas.

Foi até a edícula nos fundos de casa, pegou sua bicicleta e saiu para se exercitar. Ela precisava conversar com o vento, queria a harmonia do ar em movimento em seus ouvidos. Zum, Zum, revelaria uma lufada, em segredo.

Depois de muito pedalar, parou perto de um parquinho para descansar. Sentou num banco próximo. Roberta andava meio enferrujada e após quase duas horas de pedal, parecia inalar todo o oxigênio do seu futuro. Uma vespa a ferroou na mão e gritar foi involuntário. Uma criança que brincava na areia percebendo sua dor correu até ela:

- Não chore não, moça. Veja, bem feito, o bichinho mal, morreu.

A criança olhou curiosa para a mão que começava a inchar e continuou:

- Está doendo?

O menino tinha uma expressão tão familiar que por instantes Roberta esqueceu sua dor e o fitou.

- Está doendo muito? - Ele insistiu.

Não conseguiu responder. Ela já tinha visto aqueles olhos, mas não, não eram os mesmos. Alguém já havia a contemplado exatamente assim, exatamente com aquela mesma ternura.

- Tomás, Tomás! Venha já pra cá.

Ah, aquela voz! O homem se aproximou da criança de modo ríspido e a puxou. Ele não viu o rosto dela. Seu cabelo o cobria e ela fingia pra si mesma retirar o ferrão do dedo. Não teve coragem de levantar a cabeça e encarar o pai daquela criança. Fora ele o seu grande amor, o grande amor de um passado tão distante, quanto hoje a capacidade daquele homem de observação ou gentileza.

Quinta-feira. Já estava no trabalho, não era ainda nove horas da manhã, abriu os e-mails da sua seção como costumava fazer todos os dias nesse horário. Um assunto na  caixa chamou sua atenção mais que qualquer outro na tela: Desculpa, só vi que era você depois de um tempo.

“Recorri a todas as formas possíveis de te achar, rs. Peço desculpas por invadir o e-mail do seu trabalho, mas foi o único disponível no google. Espero que seja você mesma que esteja lendo isso agora, por isso que não mencionarei nossos nomes aqui. Quando você levantou naquele sábado, naquele parquinho, daquele banco e pegou sua bicicleta, eu tive a certeza, era você. Meu coração disparou e não consegui me aproximar. Jamais deveria ter embarcado naquele avião para Paris. Jamais deveria ter deixado você, eu sei. Você como sempre, bela. Seria impossível não nota-la. Estarei no Clube do Choro hoje às 20h. Seria muito bom se pudéssemos nos reencontrar. Um grande e carinhoso beijo.”

Sua mão foi à boca, e a emoção foi um nervoso só, um misto de riso com vontade de chorar. O final de semana já tinha lhe trazido algumas recordações depois daquele episódio. Levantou. Foi até a copa do setor e tomou uma xícara grande de café, depois retormou de novo para o computador.

Era óbvio que era para ela aquela mensagem. Era um e-mail do Paulo, só ele poderia ter escrito aquilo. Voltou muitas vezes para o seu outlook durante o dia. Tentou redigir diversas respostas, mas não, não conseguiu. E ao Clube do Choro, conseguiria?

Que espécie de zangão ele deveria ter se tornado? Ela pensava. Será que ainda voava de flor em flor? E que tipo de mel agora ele era capaz de produzir?

Entrou naquele espaço. A apresentação já acontecia. Só os músicos estavam iluminados. Eram eles que irradiavam à luz na escuridão do recinto. Encostou sua cabeça no canto da parede e ficou observando a expressão daquele musicista... Paulo deveria estar lá, mas e se não estivesse? E o que importaria tudo agora? Por que interessaria, a visão daquele zangão frente à sua flor, se no seu desabrochar ele jamais lhe revelara à geleia real da sua doçura? Afinal, por que ela estava ali?

Encostada num canto, Roberta acompanhava a composição magnífica que os dedos mágicos do pianista revelavam ao acariciar aquele instrumento. Quando uma mão segurou seu ombro com suavidade, tudo o que quis foi permanecer parada, sem virar pra trás, transformando-se no resto daquela música que ia terminando, tentando se encaixar na composição, como flamingos num lago cor-de-rosa.