Tudo o que elas dizem
Verdade, mentiras, segredos... Tudo é uma incógnita quando se pode fantasiar.
quinta-feira, 31 de julho de 2014
quinta-feira, 28 de março de 2013
LÍNGUA DE TRAPO, CABELO DE AÇO
Rebeca era daquelas que
perdia a amiga, mas não perdia a piada. Adorava tirar onda da cara dos outros.
Muitas vezes não se tocava, na maioria das vezes chegava mesmo a ser chata.
Era
por volta das 18 horas e seus colegas de trabalho estavam saindo da empresa.
Alguns estavam parados do lado de fora, conversando ainda sobre o serviço, próximo à porta de saída .
Cínica como era, despediu-se
de todos com um sorrisinho fingido na cara, pegou seu celular, entrou no carro
e ligou ali mesmo do estacionamento para a amiga que estava na rodinha de
conhecidos ali na frente.
- Patrícia, não fale
meu nome. – foi logo avisando – Diga sinceramente o que você acha do cabelo da
nossa colega.
- De quem?
- Da Bruna.
Instantes de absoluto
silêncio se seguiram. Patrícia fez que não ouviu e desligou.
Rebeca apertou recall e
insistiu:
- Patrícia, não
desligue na minha cara, não. Fale logo. – Disse rachando de tanto rir
do outro lado da linha.
- Não estou te ouvindo
direito, vou desligar. - mentiu.
O telefone tocou pela
terceira vez e desta vez Rebeca não perdoou:
- Esse cabelinho aí é
simplesmente horroroso, essa mulher parece uma bruxa, eu não aguento ela. E
essa pinta que ela tem na ponta do queixo? Parece aquelas feiticeiras horrendas
saídas das histórias de terror. – Rebeca ria e ironizava.
- Fala alguma coisa
Patrícia. Fala vai, vai dizer que é mentira?
- Você sabe que não dá
pra falar agora. E pare de me ligar. Depois conversamos. – Patrícia desligou o
celular, constrangida por estar olhando na cara da mulher que estava bem na sua
frente, enquanto Rebeca sacaneava do outro lado da linha.
Dessa vez Rebeca não
ligou mais. Olhou-se pelo espelho do seu carro, mexeu nos seus cabelos sedosos,
arrumou novamente o retrovisor, ligou a ignição e partiu.
“Meus cabelos são
maravilhosos, ainda bem. Graças a Deus que não tenho aquele cabelo horrososo da Bruna”,
pensava.
Rebeca queria que seus cabelos fossem apenas um pouquinho menos armado,
mas nada que uma escova progressiva não resolvesse. Quando disse mentalmente a
palavra escova progressiva, Rebeca pensou com a sua “inteligência” peculiar: “Lógico,
se eu fizer um relaxamento no meu cabelo, que já é naturalmente sedoso, ele vai
ficar no mínimo escorrido como o da Monalisa”.
Era exatamente o que
ela queria. Parou na frente de uma casa de cosméticos próximo a sua residência e
pediu informações à vendedora.
- Por favor, qual o
melhor relaxante para cabelo?
A vendedora olhou para
os cabelos de Rebeca, hesitou um pouco, pegou a caixa e respondeu:
- Esse aqui. Mas, não é pra senhora, é?
- Pra mim mesma. –
Disse Rebeca extasiante.
A vendedora arregalou
os olhos e continuou:
- Seu cabelo não
precisa de relaxante.
- Ah, não precisa, mas
vou passar. Vai ficar lindo. – Disse em tom arrogante.
- Bem, já que a senhora
quer tanto fazer esse tratamento capilar, nós podemos indicar um bom
profissional.
- Não querida, eu sei
ler a bula, obrigada. – Disse irritada dirigindo-se ao caixa.
Rebeca pagou a conta e
entrou no carro. Mal chegou em casa e se enfiou no banheiro. Não prestou muita
atenção nas instruções da bula. Já havia pintado sozinha seus cabelos. Apenas
imaginou que se deixasse seus cabelos mais tempo com o produto, mais escorrido
ele ficaria.
Ligou a TV e assistiu toda a propaganda eleitoral com aquela
gororoba na cabeça. Dormiu. Algum tempo depois acordou assustada, sentia sua
cabeça quente, mas do que o normal. Correu para o banheiro novamente e não teve jeito.
Viu uma fumaça real sair de toda sua cabeça. Jogou todos os condicionadores que
tinha em casa, jogou leite, jogou ovo, depois se jogou na piscina de casa.
Quando olhou no espelho de novo lembrou do pallaço Bozo. Então chorou. Lembrou
da Bruna. Imediatamente pegou o telefone e ligou para sua amiga Patrícia:
- Paty, você me
desculpa por hoje, viu? Prometo nunca mais falar mal do cabelo da nossa colega, aliás
do cabelo de ninguém.
- Rebeca, você está
chorando?
- Estou.
- O que aconteceu?
Porque está falando ainda do cabelo da Bruna?
- Porque agora, até o cabelo da Bruna é melhor que o meu e amanhã, eu vou ter que sair para comprar uma peruca.
AQUELE DEZEMBRO
O céu estava radiante naquele
início de dezembro e Roberta começava seu processo reflexivo de fim ano. Iniciava
aquele mês refletindo sobre sua vida, mais uma vez seus pensamentos
realizavam um longo processo reavaliativo de si mesma. Uma revoada de pássaros,
como acontecia em todas as manhãs, sobrevoou seu quintal, descortinando a
promessa de mais um bom dia.
Decidiu, naquela manhã, fazer sua refeição matinal na varanda de casa. Sentada à mesa, aguardou uma novidade
pousar nela, esperou como esperam as frágeis e delicadas flores por suas
abelhas. Começou a pensar nisso quando uma pequenina pousou no copo em que
bebia o suco que se encontrava sobre a mesa, posta perto do jardim. Assim,
começou a abrir em sua mente os delírios que sempre se camuflavam em sua cabeça. Roberta adorava fazer os paralelos do diferentes mundos. Desejava dos alquimistas
a inacreditável transformação do seu mel.
"Claro que homens são como
abelhas", ela elucubrava! "Eles sempre buscam diferentes flores, diferentes
néctares. É papel deles, polinizar o mundo. Só mesmo os zangões copulam zangados
com a rainha gorda e disforme, tudo isso pela manutenção da ordem! Da velha e
rotineira ordem!"
Pôs um pouquinho de própolis
no suco de laranja e afugentou a abelhinha. "Que faça ela mel, para sua
chefa, das outras flores, não da minha saliva na borda do meu copo!" Ela devia
estar mesmo louca, brigava sozinha, brigava com qualquer coisa que invadisse o
espaço que considerava ser só seu. Os periquitos passaram de novo em revoada, eles
adoravam fazer isso. O canto do galo, do alto da árvore, embora compusesse
aquela sublime sinfonia, parecia por vezes querer destoar daquele coro tão lindo
de pequenas aves.
Naquela semana havia
decidido, seu computador faria a pausa necessária para que pudesse reestruturar seu caos interior. Por vezes isso a deixava meio maluca, e vez por outra se pegava conversando com os objetos, com o computador e com as abelhas que pousavam na sua louça... Logo já começava a elaborar incríveis fábulas em sua cabeça.
Prestar atenção no universo lá
fora era uma forma que tinha de recriar em sua mente um mundo fantástico, numa dimensão
nada frequentada pela maioria das pessoas.
Foi até a edícula nos fundos
de casa, pegou sua bicicleta e saiu para se exercitar. Ela precisava conversar
com o vento, queria a harmonia do ar em movimento em seus ouvidos. Zum, Zum, revelaria uma lufada, em segredo.
Depois de muito pedalar, parou perto de um parquinho para descansar. Sentou num banco próximo. Roberta andava meio enferrujada e
após quase duas horas de pedal, parecia inalar todo o oxigênio do seu
futuro. Uma vespa a ferroou na mão e gritar foi involuntário. Uma criança que
brincava na areia percebendo sua dor correu até ela:
- Não chore não, moça. Veja, bem feito, o bichinho mal, morreu.
A criança olhou curiosa para a mão que começava a inchar e continuou:
- Está doendo?
O menino tinha uma expressão
tão familiar que por instantes Roberta esqueceu sua dor e o fitou.
- Está doendo muito? - Ele
insistiu.
Não conseguiu responder. Ela já
tinha visto aqueles olhos, mas não, não eram os mesmos. Alguém já havia a contemplado exatamente assim, exatamente com aquela mesma ternura.
- Tomás, Tomás! Venha já pra
cá.
Ah, aquela voz! O homem se aproximou da
criança de modo ríspido e a puxou. Ele não viu o rosto dela. Seu cabelo o cobria e
ela fingia pra si mesma retirar o ferrão do dedo. Não teve coragem de
levantar a cabeça e encarar o pai daquela criança. Fora ele o seu grande
amor, o grande amor de um passado tão distante, quanto hoje a capacidade daquele homem de observação ou gentileza.
Quinta-feira. Já estava no
trabalho, não era ainda nove horas da manhã, abriu os e-mails da sua seção
como costumava fazer todos os dias nesse horário. Um assunto na caixa chamou sua atenção mais que qualquer outro na tela: Desculpa, só vi que era você depois de um tempo.
“Recorri a todas as formas possíveis
de te achar, rs. Peço desculpas por invadir o e-mail do seu trabalho, mas foi o único disponível no google. Espero
que seja você mesma que esteja lendo isso agora, por isso que não mencionarei nossos nomes aqui. Quando você levantou naquele sábado, naquele parquinho, daquele
banco e pegou sua bicicleta, eu tive a certeza, era você. Meu coração disparou
e não consegui me aproximar. Jamais deveria ter embarcado naquele avião para Paris.
Jamais deveria ter deixado você, eu sei. Você como sempre, bela. Seria
impossível não nota-la. Estarei no Clube do Choro hoje às 20h. Seria muito bom
se pudéssemos nos reencontrar. Um grande e carinhoso beijo.”
Sua mão foi à boca, e a
emoção foi um nervoso só, um misto de riso com vontade de chorar. O final de
semana já tinha lhe trazido algumas recordações depois daquele episódio.
Levantou. Foi até a copa do setor e tomou uma xícara grande de café, depois retormou de novo para o computador.
Era óbvio que era para ela aquela
mensagem. Era um e-mail do Paulo, só ele poderia ter escrito aquilo. Voltou muitas vezes para o seu outlook durante o dia. Tentou redigir diversas
respostas, mas não, não conseguiu. E ao Clube do Choro, conseguiria?
Que espécie de zangão ele
deveria ter se tornado? Ela pensava. Será que ainda voava de flor em flor? E que tipo de mel
agora ele era capaz de produzir?
Entrou naquele espaço. A apresentação
já acontecia. Só os músicos estavam iluminados. Eram eles que irradiavam à luz
na escuridão do recinto. Encostou sua cabeça no canto da parede e ficou observando a expressão daquele musicista... Paulo deveria estar lá, mas e se
não estivesse? E o que importaria tudo agora? Por que interessaria, a
visão daquele zangão frente à sua flor, se no seu desabrochar ele jamais lhe revelara à geleia real da sua doçura? Afinal, por que ela estava ali?
Encostada num canto, Roberta acompanhava a composição magnífica que os dedos mágicos do pianista revelavam
ao acariciar aquele instrumento. Quando uma mão segurou seu ombro com suavidade,
tudo o que quis foi permanecer parada, sem virar pra trás, transformando-se no resto daquela música que ia terminando, tentando se encaixar na composição,
como flamingos num lago cor-de-rosa.
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